O grito dos refugiados

Escrevo estas linhas com dor, paixão, ternura e indignação depois da visita de um mês e meio, que fiz neste verão aos campos de refugiados na Grécia. Motivou-me a solidariedade com a humanidade sofredora e, como cristão, me motivou aproximar-me deles no reconhecimento da presença viva de Jesus nos sem teto, migrantes e refugiados, que são os crucificados da história em nosso tempo.
O fenómeno dos refugiados sírios é o maior drama humano desde a Segunda Guerra Mundial. São mais de 50 milhões de refugiados em todo o mundo, segundo a Anistia Internacional, sendo Síria um dos países mais afetados: 6 milhões de refugiados .
Dói este mundo. Dói a injustiça. Doem as guerras. Dói o sofrimento das pessoas. Dói a falta de sensibilidade e solidariedade para abrir fronteiras e acolher os que pedem ajuda e querem viver em paz. “Abram as fronteiras” foi o grito de milhões de jovens gregos e europeus de diferentes países na Caravana da Solidariedade em que acompanhei na Grécia entre os dias 15 a 24 de julho e na qual se somaram multidão de refugiados.
O trabalho dos voluntários nos campos não se limita somente a assistência. Tem outra tarefa importante como a comida, a distribuição de roupas e de medicamentos. Trata-se de escutar e dar carinho as pessoas que vem sofrendo cinco anos de guerra, que perderam familiares e amigos pelo estado islâmico ou por bombardeios do governo e seus aliados, que fizeram uma viagem duríssima onde também viram morrer seus compatriotas afogados na travessia do mar, e, sobretudo, sobreviveram a triste experiência da não acolhida no continente europeu em que eles tinham idealizado. Por isso, é frequente ver crianças correndo atrás dos voluntários para brincar ou dar-lhes um abraço. Necessitam ser acolhidos, valorizados, queridos. Os refugiados agradecem de tal modo, a presença dos voluntários. Um refugiado de Palmyra me contava que o dia em que chegue a paz na Síria, gostaria que fosse todos os voluntários das diversas associações que os acompanham para celebra com eles uma grande festa.
Quase todo tempo em que estive com os refugiados, me dediquei a visitar tenda por tenda, falar com as pessoas e recolher testemunhos, que em um dia publicarei. Fiquei impressionado. As vezes não podia dormir despois de haver escutado suas experiências. Uns fogem do massacre do chamado Estado Islâmico. Os curdos são os mais perseguidos pelos jihadista. Violentam as mulheres, decapitam os homens e queimam vivas as crianças. Povos inteiros saíram fugindo pelas montanhas, passando fome e sede, em dormindo ao relento, para entrar na Turquia e dali tomar uma lancha plástica as ilhas gregas, morrendo, muitos deles, afogados na travessia. Outros fogem dos bombardeios do governo sírio apoiado pela Rússia, sobretudo nas cidades de Damasco e Alepo. Mais de quatro milhões de pessoas perambulam de um lugar a outro dentro da Síria fugindo da morte, sem encontrar um lugar seguro. Os que conseguiram sair da Jordânia, Líbano, Turquia ou Grécia são felizes. Em vez de abrir suas fronteiras para dar acolhida solidária aos refugiados, os tem vivendo em situações deploráveis nesses “campos de concentração”.
Soará o grito dos refugiados na consciência de nossos governantes e no coração daqueles que acreditam em Deus? Não sei. Talvez sim, talvez não. Por isso, estou seguro que este grito chegou ao coração de Deus e está questionando as Nações Unidas, a Comissão Europeia, os fabricantes de armas, o ministros do Interior… e a todos nós: “Que fizeste! Eis que a voz do sangue do teu irmão clama por mim desde a terra, pedindo que faça justiça” (Gen. 4,10).


Escrito por Fernando Bermúdez